Os resultados da expedição Pyreneus de Souza (A Rua, 27/julho/1915)
ResultadosExpedPyreneusDeSouza_ARua1915ed%20n206.jpeg
Os exploradores do nosso sertão

Os resultados da expedição Pyreneus de Souza1

  1. Regressou hontem ao Rio o tenente Pyreneos de Souza, um dos esforçados membros da commissão Rondon, que tem desbravados os invios sertões de Matto Grosso e Amazonas.
  2. O trabalho levado a cabo pelo tenente Pyreneos, na sua ultima expedição é bastante apreciavel.
  3. Está finalmente, depois de diversas tentativas malogrados2, convenientemente explorado e determinado o curso do rio Paratininga.
  4. Esse serviço importantissimo se deve ao tenente Pyrineos de Souza, esforçado auxiliar da commissão Rondon.
  5. Os trabalhos de exploração do tenente Pyrineos viéram provar que laboravam em erro os que attribuiam ao S. Manuel maior importancia que ao Paratininga, ficando aquelle como affluente deste.
  6. Ambos os rios foram, desta feita, explorados até ás suas nascentes, ficando, por tanto, perfeitamente determinada a importancia de cada um delles e a tributação do S. Manuel ao Paratininga.
  7. A expedição Pyrineos partiu da linha telegraphica, no ribeirão Amollar, um pouco além de Diamantina, fazendo por terra, o levantamento até encontrar o rio Paratininga no ponto em que elle já foi explorado (confluencia do S. Manuel), a 40 leguas, approximadamente, do ponto de partida.
  8. Dahi a commissão subiu em canôas até onde foi possivel, chegando as cabeceiras do Paratininga por terra indo até á sua nascente. O mesmo havendo feito em relação ao S. Manuel.
  9. Na descida foi feito o levantamento do S. Manuel e do Paratininga até a sua foz no rio Tapajós; continuando a commissão por esse rio até ao porto de Cachoeira de S. Luiz, onde aportam os navios do Lloyd, desse porto até Santarém na foz do Tapajós, e dahi até Belém do Pará, onde embarcou para o Rio, aqui chegando ante-hontem.
  10. A commissão chefiada pelo tenente Pyrineos, que gastou nesse serviço seis mezes, constava apenas de nove pessoas.
  11. Os trabalhos executados constaram: do levantamento do rio, medição das secções transversaes de todos os seus affluentes, avaliação da descarga dagua por segundo de tempo, sondagem de todo o rio, completo serviço meteorologico, observação da marcha das nuvens e dos ventos, observações barometricas e thermometricas em todo o trajecto, otmados3 de meia em meia hora nos pousos, observações com o psycometro4, etc.
  12. Além desses trabalhos, a commissão trouxe collecções de mineralogia e zoologia, dados antropologicos e ethnographicos e fosseis.
  13. Da foz do S. Manuel para cima, o rio foi visitado pela primeira vez, sendo descobertos os affluentes e attingido o ponto exacto das cabeceiras.
  14. Os affluentes mais importantes receberam os seguintes nomes: Tenente Azevedo, Inhauma, Celeste e Itabyba.
  15. O levantamento do Tenente Pyrineus ficou amarrado em um ponto proximo no rio, cuja determinação astronomica o coronel Rondon mandou que fosse executada pelo tenente Julio Caetano.
  16. Depois da confuencia5 do S. Manuel até á sua cabeceira o Paratininga faz um percurso de 123 kilometros.
  17. O tenente Pyrineos teve occasião de observar que nas cabeceiras do Paratininga nem os indios haviam caçado, pois as capivaras e outras caças não fugiam a approximação do homem, deixando que dellas se avisinhasse até tocal-as quasi. Signal evidente que não soffreram ainda as perseguições dos indios.
  18. Na sua collecção de peixes a commissão trouxe exemplares de pirahibas medindo dous metros e 40 centimetros e faluas com 2,20 centimetros, além da grande variedade de peixes menores que serão classificados pelo Museu, sendo provavel que tenha trazido especimens de alguma especie nova.
  19. O primeiro encontro com os indios cajabys se operou no pouso do Rio Verde.
  20. Esses selvagens que possuem aldeiamentos nas proximidades da cachoeira do Catá, 13 de Maio e Pinacó (Machado) dormem em rêdes, por elles proprios tecidas, são de estatura mediana, mas de musculatura desenvolvida, não se tendo apresentado nenhum doente, como sóe acontecer entre outras tribus, onde o impaludismo faz muitas victimas.
  21. Quer homens quer mulheres andam completamente nús, trazem os cabellos compridos e coloridos com urucús, toucados vistosamente de pennas e missangas.
  22. As mulheres de um bello typo de fórmas elegantes usam depillar-se completamente, despojando-se até das sobrancelhas e pestanas.
  23. Do seu encontro com a comissão os cajabys acompanharam-na em canôas pelo rio, e, emquanto receberam presentes não a hostilisaram, até á cachoeira 13 de Maio.
  24. Alli, depois de muito haverem auxiliado o tenente Pyrineus na abertura de um canal de cerca de 800 metros, como elle não dispuzesse mais de presentes, foi rudemente atacado pelos selvagens, que arremessavam num vozerio infernal grande quantidade de flexas.
  25. Em certa altura, em que as canôas da commissão, obrigadas a fugirem das margens devido a esses ataques, desviando-se do canal, o chefe de um dos aldeiamentos, um bello typo de homem appareceu a uma das margens, e caminhando pelo rio até immergir o thorax, retezando o arco em cuja corda uma flexa se fixava, procurava fazer-se ouvir pelo tenente Pyrineos.
  26. A sua voz, diz-nos o intrepido explorador, era uma linda voz, fórte e vibrante, e emquanto fallava fazia gestos como querendo dizer que para cima do rio e para baixo, em todas as direcções elle dispunha de homens para nos combater e vencer.
  27. Emquanto o chefe arengava das mattas proximas ouvia-se miados de onça, guinchos de coatás, emfim, uma infinidade de vozes de animaes. Era um dos artificios dos indios, elles se escondem pelo matto e arremedam os gritos das caças, para que, indo matal-as os explorados sejam seguros por elles.
  28. Como resposta eu fiz estourar bombas de dynamite, e o chefe que me fallava fugiu espavorido, para voltar mais tarde ao mesmo local. Do matto, então, certos de que o ruido ouvido não passara de ruido, e não fizera victimas, uma como immensa assuada partiu das mattas marginaes.
  29. De outra feita, pelo movimento observado entre elles, desconfiámos que o nosso bivaque na margem esquerda do rio ia ser atacado durante a noite.
  30. Quando escureceu e elles não podiam perceber o nosso movimento, transportamo-nos para a margem opposta. Cerca de uma hora da noite, pelo vozerio ouvido na outra margem tivemos a certeza de que atacavam o bivaque a páo, pois são suas armas a flexa e o páo.
  31. Nenhum presente me fizeram, as flechas que trago foram as que colhi das que nos foram dirigidas.
  32. Extremamente desconfiados, comestivel nenhum aceitavam de nós, e quando se instava para que comessem, faziam-nos crêr que soffriam de dôr de dentes, e abrindo as bocas deixavam ver dentaduras lindas, perfeitas, sem nenhuma cárie!

Obtida da hemeroteca digital da Biblioteca Nacional e enviada por Renato Nicolai, a presente reportagem foi transcrita manualmente por Eduardo R. Ribeiro em janeiro de 2024. A transcrição é ipsis litteris (preservando-se, inclusive, inconsistências na grafia de certas palavras e na pontuação). Devido à legibilidade às vezes limitada do original (a hemeroteca oferece versões digitalizadas de microfilmes, às vezes de difícil leitura), é possível que a transcrição de alguns caracteres esteja equivocada, que estejam faltando vírgulas, etc. Para sugerir correções à transcrição, entre em contato com os administradores do site.

This site is part of the Etnolinguistica.Org network.
Except where otherwise noted, content on this site is licensed under a Creative Commons Attribution 3.0 License.