Apresentação: Noel Nutels : Memórias e depoimentos (Houaiss 1974)

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APRESENTAÇÃO
ANTONIO HOUAISS

A RAZÃO DE SER DESTE LIVRO provém de uma convicção: fala de uma vida tão singularmente rica de humanidade, que sua lição não pode ficar sem semente: que esta se preserve aqui, enquanto não reviva num novo Noel Nutels.

Fazer uma biografía canônica desse homem — que, na minha experiência, se aproximou, como poucos, da santidade — é um desafio prematuro. O tempo decantará sua ação, sua obra, sua devoção, sua personalidade múltipla mas una, para que se venha algum dia a estimar com justeza o quanto devemos, brasileiros, a ele, como exemplo, empenho, luta, continuidade, altruísmo, visão, malogro, esperança, quixotismo, humanismo.

No meio tempo, nasce esta mensagem, de importância inestimável: olha para trás e salva algo acaso esquecivel, olha para frente e mantém latente algo que não deverá morrer.

Noel Nutels é visto nestas páginas sob feições as mais imprevisíveis ou inverossímeis: amigo, crooner, acadêmico, burocrata, médico, tisiologista, sanitarista, político, indigenista, escatofônico, idealista, sentimental, altruísta, solidário, folgazão, glutão, hedonista — que sei ou saberá alguém, mesmo Elisa?

Aqui, por isso, vão algumas facetas suas — aspectivas ou temporais —, segundo o crivo afetivo e remembrativo dos depoentes, amigos (e, por isso mesmo e necessariamente, admiradores seus, mas não sem isenção e imparcialidade para não reconhecerem todos, e cada um, que Noel Nutels era um caso à parte, não apenas por sua unicidade, mas também por seu profetismo — ainda que profeta da redenção de uma raça que talvez não venha a ter história, anulada ante a voracidade — por ele tão sistematicamente denunciada — de espaço vital, tão estrangulados estamos os cem milhões que somos nos oito e meio milhões de quilômetros quadrados que detemos.

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Desse modo, uma verdade emerge clara destes escritos: houve uma devoção e uma mensagem nessa vida, e cumpre que ela seja conhecida, sabida, admirada e — quando possível — seguida. No exemplo dessa antevisão, muitos brasileiros de hoje e de amanhã antevirão o desejado Brasil do futuro, harmonizado num dos seus mais dilacerados componentes, o étnico, em que uma raça vem sendo sistematicamente aniquilada sob os mais elevados pretextos ideológicos, que, essencialmente, recobrem uma mecânica bruta de exploração, assassínio e despossessão, para não-proveito sequer — o que seria triste consolo, mas consola — da maioria dos 'outros' brasileiros. Essa bárbara contradição, Noel Nutels vida afora a fez seu programa de denúncia e de luta. Noel Nutels terá sido, assim, um visionário (alguns dirão com beicinho piedoso mas irritadiço), um profeta de causas perdidas, porque, de fato, se postou ante a vida como quem queria dar mais do que receber, mais ser do que ter, mais consciente de que nenhuma vocação de felicidade se consumará limpa enquanto se erguer algo contra a felicidade de outrem ou enquanto houver restrição externa à felicidade de outrem. Seria, assim, uma hipocrisia omitir a convicção política e social de Noel Nutels.

Elisa — a mulher sempre alerta de Noel, eleita univocamente por ele, que sempre o elegeu, biunívocos que foram entre si — juntou estes escritos, estes traços.

Encarregou-me de dar-lhes uma seqüência que fizesse sentido. Não me coube sequer isso, tão harmoniosos entre si são eles, cuja publicação sai com autorização expressa dos seus signatários.

Coube-me apenas ordená-los. Cada um dos amigos de Noel Nutels aqui presentes viu-se impelido a manifestar seu pesar ante sua morte. Alguns fizeram-no pela imprensa, outros com vistas a futura publicação. Reunidos, eram sobre vários Noéis, os que ele foi sendo, exclusiva ou cumulativamente, ao longo da vida.

Um ponto obscuro, porém, restava: os primeiros anos de vida. Ora, Noel, quando a Parca dele se aproximou, decidiu-se a iniciar, porque não podía deixar de agir, umas (tão desejadas por seus amigos) memórias. Não foi além dos primeiros anos, uns poucos capítulos de algo que viria a ser, sem dúvida, um espelho fiel de sua vida. Não sem razão, portanto, Noel por Noel mesmo constitui a primeira parte deste livro. As demais escalonam-se

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segundo aquele critério, temático-temporal, a que fatalmente se teria que indicar quem quer que estivesse no meu lugar.

Livro de saudade — e de verdades —, o sentimento e afeto, aqui, não derivam de atitude atristada dos que o perderam. É que, a Noel, amava-se e admirava-se a um tempo; com Noel, aprendia-se e fortalecía-se; de Noel, hauria-se um impulso de viver, e viver sobretudo para os outros e pelos outros, o que foi fonte sua, espalhada com devoção quase sacerdotal, mas sem alarde nem grita, naquela sua maneira de ser muito essencial, generosamente manifestada com índios e caboclos, os desapossados de tudo, salvo da muita miséria e da pouca saúde. Isso era Noel, quando no interior do Brasil. Quando nas cidades, Noel era a Meca — ! — de peregrinação de quantos queriam — sob sorriso, ou riso ou mesmo, às vezes gargalhada — nutrir-se de vida afetiva, sentimental, espiritual, intelectual.

Tendo tido sempre problemas pela frente — os seus problemas eram os marginalizados, aos quais buscava, queria, precisava levar assistência, dignidade, saúde, solidariedade, humanidade —, fazia-nos, a todos nós, solidários desses problemas, para a edificação (utópica que fosse) de uma nação a que se deu de corpo e alma, todo inteiro, com uma fé e esperança que os reveses contínuos jamais abalaram.

Quixote, Macunaíma — que importa? —, Noel foi um santo, é um santo, cuja hagiografia principia aqui.

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