Introdução [Índios de Mato Grosso (Freundt 1947)]

[p. 3]

INTRODUÇÃO
de
Herbert Baldus


O presente livro trata dos Boróro, dos Caduveo e dos Opaié.

É de supor que, em tempos idos, tenha havido, entre essas tribos, contactos indirectos e, talvez, até passageiramente directos. Além disso existem, no seu modo de vida, semelhanças determinadas, até certo ponto, pelo meio geográfico. Profundas, porém, são as diferenças, tanto as somáticas, como as do idioma e da cultura em geral.

BORÓRO


Estes índios formam a família lingüística homônima, dividindo-se num grupo ocidental, que vive na região situada entre as cabeceiras do Guaporé e o alto Paraguai, e num grupo oriental, cujo território de caça se estendeu, nos meados do século passado, deste rio até perto da cidade de Goiás e do rio das Mortes até as proximidades de Miranda. Os Boróro Orientais contam que, antigamente, passaram mais ou menos a quarta parte do ano em grandes caçadas e o resto sem se afastarem muito da aldeia e de seus milharais. Embora também então, tivessem continuado a levar a vida de captores, isto é, caçando, pescando e colhendo vegetais silvestres, teriam praticado estes modos de adquirir o sustento unicamente nos arredores de suas moradas fixas.

Já o tamanho e a organização das tradicionais aldeias parecem indicar essa estabilidade. Como certas tribos da família Gê, que igualmente se alimentam, em parte, da lavoura, os Boróro Orientais dispõem as casas em forma mais ou menos circular e de acordo com a sua divisão dual segundo a qual os componentes de uma metade tribal só podem casar com os da outra. Nas grandes povoações boróro, porém, a lei matrimonial exige ainda mais: não lhe basta inibir o casamento entre os habitantes do mesmo semicírculo de casas; também entre as cabanas ocupadas pela outra metade tribal há só determinadas com cuja gente é lícito casar.

O número das casas dessas aldeias pode ser superior a vinte. Cada casa tem tantas famílias da mesma descendência quantas são as mulheres casadas. A mulher, depois do casamento, continua a morar com a mãe.

Com a palavra boróro designam esses índios o pátio da aldeia. Os Boróro Orientais se chamam a si mesmos Orarimogodogue, sendo orari o peixe que nós tratamos de «surubim» ou «pintado», e dogue um sufixo plural.

Hoje, o seu território está consideràvelmente reduzido. No leste, oeste e sul avançavam os brancos, e do norte vieram atravessando o rio das Mortes aqueles índios chamados de Caiamo pelos Boróro e de Chavantes pelos sertanejos brasileiros. De medo de todos os vizinhos, alguns grupos de Orarimogodogue se entregaram aos padres salesianos quando estes fundaram as missões na secular estrada que vai de Cuiabá a Goiás. Outras partes da tribo, porém, preferiram a independência, ficando na região do rio Vermelho e do alto São Lourenço. Em quase semelhante independência viviam os habitantes da pequena aldeia Tóri-páru, quando, em 1935, os visitei.

Esta povoação boróro situada a cerca de duas léguas de Lageado, hoje Guiratinga, tinha, naquela época, seis cabanas dispostas ao redor da grande casa reservada para os homens, sendo o número total de habitantes superior a cem. Adquiriam o sustento caçando com arco e flecha, pescando pelos diversos processos tradicionais, plantando mandioca, arroz e feijão

[p. 4]

à maneira dos vizinhos brasileiros, e trabalhando, às vezes, nas fazendas dos arredores. Conservavam, ainda, a fabricação sólida e artística dos arcos pela qual os Boróro Orientais se distinguem de todos os outros índios do Brasil. Quando a presença de certos brancos os levava a vestir-se à europeia, os homens usavam debaixo da calça o estojo peniano de palha de palmeira e as mulheres debaixo do vestido o antigo traje de cortiça e embira. Mas na casa-dos-homens ninguém usava senão aquele pequeno estojo afunilado. Também os grandiosos adornos de plumas continuavam nas suas funções. Embora, na missão de Meruri, o índio Tiago Aipoboru, antigo aluno dos salesianos, me dissesse: «Hoje a gente não pode mais andar como dantes, enfeitada de penas», um homem da mesma tribo e que, igualmente, tinha frequentado o colégio de Cuiabá, demonstrou o contrário: O Boróro Roberto Ipuréu, meu intérprete em Tóri-páru, usava um penacho na cabeça e, de boa vontade, posou com ele para uma fotografia.

Também a respeito do tratamento dos defuntos, os habitantes dessa aldeia eram conservadores. As páginas seguintes mostrarão que, ainda seis anos mais tarde, praticavam os tradicionais ritos funerários.

Sobravam, portanto, razões para eu recomendar ao Prof. Erich Freundt a viagem a Tóri-páru.

CADUVEO

São estes índios os componentes mais setentrionais da família linguística Guaicuru. Talvez não exista, actualmente, tribo brasileira cuja história seja melhor conhecida do que a destes habitantes do Sudoeste mato-grossense. Único no gênero é, na América do Sul, o papel que os seus antepassados desempenharam em relação com os vizinhos.

O antigo território dos Guaicuru do Norte, campo interrompido por matas e palmeiras isoladas, é prolongamento do Grande Pantanal até a Serra da Bodoquena. Anualmente, as planícies baixas ficam inundadas, ressecando-se, depois, sob um sol abrasador. Essa mudança mantém em movimento os animais e, com eles, o homem.

Os caçadores que seguiam os veados ao pasto, vieram a ser, no século XVII, pastores que levavam para os capinzais o gado vacum, cavalar e lanígero roubado aos espanhóis do Paraguai. Esta nova actividade produziu importantes modificações sociais e políticas. Do criador de gado ao escravocrata vai só um pequeno passo.

Já antes da aquisição do cavalo esses índios estavam estratificados sobre os Guaná e tinham vencido e desalojado, em longas campanhas, outras tribos e também os brancos. Mas o seu verdadeiro imperialismo só começou depois de terem cavalos. O seu avanço para o sul durou até os meados do século XVIII e, no dizer de Azara, faltou bem pouco para exterminarem toda a população espanhola do Paraguai. Nas suas lutas com os portugueses chegaram, repetidas vezes, até bem perto de Cuiabá, sendo os portugueses mortos por eles avaliados em mais de 4.000, quantidade de imenso alcance para aquele tempo.

Sobre o papel do cavalo nos ataques dos Guaicuru escreve Rodrigues do Prado, comandante de um forte português situado no rio Paraguai: «Com os cavalos se fizeram temíveis aos outros selvagens, e aos mesmos Paulistas, que não saíam ao sertão senão com grande levada, receavam encontrá-los em campo limpo, pelo modo com que eram acometidos. Tanto que os Guaicuru os viam, ajuntavam os cavalos e bois, e cobrindo os lados, os apertavam de sorte que, com a violência com que iam, rompiam e atropelavam os inimigos, e eles com a lança matavam quantos encontravam diante. O único remédio que tinham os Paulistas para escapar era o meterem-se no mato».

Enquanto os Guaicuru punham assim em jogo, contra os representantes de uma civilização superior, cavalos e bois, para compensar por este meio a superioridade que o adversário tinha com as armas de fogo, bastava provàvelmente a aparição repentina e estranhamente imponente do corcel para fazer perder a cabeça aos índios inimigos e assim dominá-los. Além disso, na luta corpo a corpo, o cavaleiro era irresistível para o índio pedestre, mesmo porque podia levar armas mais pesadas e usá-las com maior eficiência.

Os indivíduos de outras tribos aprisionados pelos assaltadores equestres vinham a ser escravos, formando-se, assim, por meio de estratificação étnica, uma sociedade constituída por camadas sociais claramente limitadas e distintas uma da outra.

O padrão de comportamento que caracterizava os antepassados como «povo senhorial», parece ser conservado, em alguma maneira, pelos Caduveo, se podemos acreditar nos seus vizinhos brancos quando estes os chamam de ladrões e vagabundos, capazes de assassinar o visi-

[p. 5]

tante desacompanhado. A mentalidade de nômades sobrevive na aversão contra trabalhos de lavoura e no entusiasmo pela caça e pesca. No serviço dos brancos, os Caduveo se negam a amanhar a terra, preferindo o trabalho de lenhador e vaqueiro.

O número de índios tem diminuído, nos últimos anos, não só pela chamada febre amarela silvestre e outras epidemias, mas também pela prática do tradicional infanticídio ao qual já se referiram os autores antigos. Segundo as informações recolhidas pelo Prof. Freundt, as duas aldeias caduveo tinham, em 1939, aproximadamente cem habitantes.

OPAIÉ

O que sabemos acerca destes indígenas, devemos, quase exclusivamente, ao grande etnólogo Curt Nimuendaju que os visitou em 1909 e 1913. Opaié ou Ofaié é o nome que eles mesmos se dão, e Chavantes é o que receberam dos sertanejos vizinhos. Distinguem-se, porém, radicalmente dos Chavantes do rio das Mortes e da extinta tribo homónima de Campos Novos do Estado de São Paulo. Loukotka considera a sua língua como isolada com intrusão de gê. Já Nimuendaju tinha chamado a atenção para esta influência. Foi ele quem coligiu não só o vocabulário no qual se baseia a classificação do filólogo tcheco, mas também interessantes dados acerca da mitologia e da história dos Opaié. Esboçou e desenhou, ainda, o mapa etnográfico do Brasil meridional inserto no tomo VIII da Revista do Museu Paulista, no qual assinalou o território antigo desta tribo, que se estendia na margem direita do alto Paraná desde o Sucuriú até o Ivinheima, confinando com as terras dos Caiapó e dos Guarani. Pela invasão dos criadores de gado no Sudeste mato-grossense morreram, na segunda metade do século passado, numerosos Opaié, tendo sido o resto dividido em bandos dos quais alguns perderam o contacto entre si. As perseguições continuaram, ainda, em nosso século, como evidencia, por exemplo, no livro «Missão Rondon», uma referência aos esforços feitos, pelo actual Presidente do Conselho Nacional de Protecção aos Índios, em prol dos Opaié das cabeceiras dos rios Tabaco e Negro, «os quais estavam sendo sistemàticamente caçados e exterminados a tiros de carabina pelo coronel José Alves Ribeiro, sob o pretexto de que os índios matavam, para comer, as reses das suas fazendas» (p. 58).

Além dos intrusos brancos contribuíram os vizinhos índios para a destruição da infeliz tribo. Nimuendaju conta que um bando de 60 a 70 Opaié atravessou, em 1908, o rio Paraná, regressando, porém, dois anos depois. É, provàvelmente, este o bando que, segundo Horta Barbosa, foi assaltado pelos Caingang paulistas que lhe tomaram crianças.

Quando, em 1913, o Serviço de Protecção aos Índios tentou reunir os restos da tribo numa reservação situada na margem do rio Ivinheima, o número dos Opaié era, no cálculo de Nimuendaju, cerca de 210. A tuberculose e, nos anos de 1917 e 1918, a «gripe espanhola» completaram a obra de extermínio. Hoje, os últimos sobreviventes da tribo estão esparramados trabalhando como vaqueiros para os conquistadores de suas terras. O general Malan descreve ràpidamente um encontro que teve com alguns desses «Chavantes» em 1924 e reproduz na prancha pegada entre as duas páginas da sua descrição cinco fotografias deles, mostrando-os em roupas «civilizadas». O professor Erich Freundt esteve, em 1942, com duas famílias Opaié na cabeceira do córrego Sant'Ana, afluente do rio Pardo, Mato Grosso.

Para estudar a cultura dos Opaié é indispensável considerar os seus frequentes contactos com os Guarani. Segundo Nimuendaju, eram, muitas vezes, contactos hostis, mas, de quando em quando, também pacíficos. Na opinião do mesmo pesquisador, os Opaié aprenderam desses vizinhos do sul o fabrico de canoas, tomando deles, além disso, o costume de perfurar o lábio inferior. Distinguem-se deles, porém, pelos dados mitológicos recolhidos por Nimuendaju, pelo facto de vaguearem, de preferência, pelos campos, em vez de levarem, como os Guarani, uma vida essencialmente sedentária de lavradores de terras arrancadas à selva, e, por fim, pelo costume de dormirem no chão e não, como esses, em redes, sendo que já o tamanho e a pouca solidez da choça opaié impedem que aí se armem tais leitos suspensos.

Manizer, descrevendo ligeiramente as danças dos Opaié encontrados por ele perto de Aquidauana, menciona que os seus chocalhos eram muito pequenos, em comparação com os dos Caduveo, ao passo que as suas flautas se assemelhavam às destes habitantes do Sudoeste de Mato Grosso.

São Paulo, Outubro de 1946.

HERBERT BALDUS

This site is part of the Etnolinguistica.Org network.
Except where otherwise noted, content on this site is licensed under a Creative Commons Attribution 3.0 License.