Teste

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Escrevo sobre arte índia tendo em mãos um material de grande beleza e de enorme valor explicativo. Mas sabendo bem que é insuficiente para qualquer pretensão de explorar, a partir dele, a contribuição da arte índia para explicar a beleza. Insuficiente até mesmo, talvez, para explicar-se a si próprio. Um estudo geral, sábio e amplo das artes indígenas deveria fundar-se em dezenas de monografias sobre suas principais manifestações.

Como não existem estas monografias, nem se pode esperar que surjam em tempos previsíveis, temos de nos contentar com apreciações genéricas, fundadas na observação direta, como a presente. Com ela não pretendo mais nem menos que lavar os olhos do leitor para a beleza das artes índias e para as alegrias da criatividade que elas despertam.

Que é arte índia? Com esta expressão designamos certas criações conformadas pelos índios de acordo com padrões prescritos, geralmente para servir a usos práticos, mas buscando alcançar a perfeição. Não todas elas, naturalmente, mas aquelas entre todas que alcançam tão alto grau de rigor formal e de beleza que se destacam das demais como objetos dotados de valor estético. Neste caso, a expressão estética indica certo grau de satisfação dessa indefinível vontade de beleza que comove e alenta os homens como uma necessidade e um gozo profundamente arraigados. Não se trata de nenhuma necessidade imperativa como a fome ou a sede, bem o sabemos; mas de uma sorte de carência espiritual, sensível onde faltam oportunidades para atendê-la; e de presença observável, gozosa e querida, onde floresce.

Esta concepção da arte, aplicada aos ín dios, nos permite encontrar em sua vida diária muitas expressões de criatividade artística. Quer dizer, criações voltadas para a perfeição formal, cuja factura, desempenho ou simples apreciação lhes dá gozo, orgulho e alegria. Muito mais do que na nossa vida, estão presentes na vida indígena estas formas de fruição artística. Lá, porém, estas qualidades do que é artístico estão de tal forma dispersas no que eles fazem, que teríamos, talvez, de encarar

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como arte criações dos gêneros mais variados. Um arco cerimonial
emplumado dos Borôro - mas não um arco comum -
uma enorme peneira Desana, trançada de forma a ressaltar desenhos
decorativos - mas não qualquer peneira - seriam criações
artísticas porque se destacam como objetos de beleza
extraordinária. O importante, porém, é que, lá, qualquer arco
comum de caça ou qualquer peneira reles de colher mandioca
são muito mais belos e perfeitos do que seria necessário para
cumprir suas funções de uso. Essa perfeiçã'o, buscada e alcançada
com muito esforço e muito esmero, só se explica porque
sua função efetiva é serem belas. Em conseqüência, no univer-
30 so indígena, todos esses qbjetos podem ser tidos como criações
artfsticas.
Assim é porque a característica distintiva da arte é ser mais um
modo do que uma coisa, mais forma do que conteúdo, mais
expressão do que entidade. Suas criações se apresentam como
um conjunto estilizado de modos de fazer certas coisas, de
contar uns casos, de cantar e de dançar. O que caracteriza a
arte índia, entre as artes, ê este modo generalizado de fazer todas
as coisas com uma preocupaçã'o primacial mente estética.
Para complicar as coisas, nada parece mais fortuito e até fútil
do que o modo artístico. Entretanto, ele exibe uma fixidez
admirável e, mesmo quando muda, muda dentro de certa pauta
cuja continuidade se pode ver. Isto é o que ocorre com os estilos
artísticos de cada tribo, em cada genero, que variam sensivelmente,
como se pode observar através da comparação das
coleções museológicas. Variam, porém, lentissimamente e só
variam pela acumulação de pequenas alterações quase imperceptíveis
em cada geraçã'o, preservando, assim, através do tempo,
o perfil estilístico tribal.
Contribui, provavelmente, para este conservadorismo, o fato
de que o saber técnico, sendo implícito no n fvel tribal, só pode
reter o acervo das experiências do passado pela repetição fiel
de cada item formal. Uma flecha, por exemplo, deve atender a
grande número de requisitos físicos de dimensões proporcionais,
de equilíbrio, de peso e de torção adequada da emplumação,
para imprimir em seu movimento a rotação necessária
para que ela cumpra sua função prática. Qualquer fuga dessa
pauta põe a perder a flecha como instrumento eficaz de caça e,
assim, desarma a tribo que se decide a improvisar nessa matéria.
Esse imperativo tecnológico se estende a todas as demais
criações culturais, inclusive às artísticas, tão intimamente associadas
à produção corrente, emprestando-lhes um conservadorismo
evidente.
t de perguntar, nesta altura. se não seria um valor cultural nosso
a idéia de coisa artística. Não seria isso uma espécie de supervalorização
que atribu (mos a algumas criações? Entre nós é
nítida a diferença entre objetos pretensamente únicos, criados
por especialistas, dentro da categoria de coisas destinadas às
coleções privadas ou a museus e tudo que se destina ao uso
corrente. No mundo indígena, ela existe para o etnólogo que
olha, reconhece e colhe os objetos "artísticos"; não tanto para
os índios que os têm e os usam junto com todos os outros. Esclareça-
se aqui que, apesar de usá-los conjuntamente, os índios
apreciam distintivamente os espécimes que atendem melhor
aos requisitos formais de perfeição de cada gênero e melhor expressam
o padrão tradicionalmente prescrito, como também
reverenciam muito as pessoas que conseguem fazê-los com tamanha
perfeição. Mas ninguém pensaria lá em colecionar objetos
artísticos. Cada objeto retrata quem os fez e lembra os dias
em que foi feito. Como tal, pode ser tido e retido, mas jamais
colecionado.
O artista índio não se sabe artista, nem a comunidade para a
qual ele cria sabe o que significa isto que nós consideramos objeto
artístico. O criador indígena é tão somente um homem
igual aos outros, obrigado, como todos, às tarefas de subsistência
da família, de participação nas durezas e nas alegrias da
vida e de desempenho dos papéis sociais prescritos de membro
da comunidade. ( porém, um homem mais inteiro, porque,
além de fazer o que todos fazem, faz algumas coisas notoriamente
melhor que todos.
Vivendo a vida indígena e tratando de colecionar objetos com
propósitos museológicos, sentimos a estranheza que provocava
nos índios a nossa ocupação. Para eles, retirar aquelas coisas
do uso corrente e retê-las s~ria como perder a fé de que os homens
sejam capazes de continuar a fazê-las. O importante para
os índios não é deter o objeto belo, mas ter os artistas ali, fazendo
e refazendo a beleza, hoje como ontem, amanhã e sempre.
Essa certeza de que a vida está composta de coisas que
têm tanto potencialidades práticas como expressões de beleza,
lhes dá uma grande segurança. Segurança que não temos nós
que tanto colecionamos espécimes raros, como desprezamos
seus criadores.
O público do artista indígena, seu corpo de apreciadores e críticos,
é a comunidade total que exerce sobre ele uma grande
pressão. Por um lado, um ingente reclamo de perfeição formal;
e por outro lado, uma clara exigência de fidelidade aos padrões
tradicionalmente estabelecidos. Estamos, como se vê, frente a
uma comunidade que tanto valoriza e gratifica altamente todo
virtuosismo bem logrado, como regula a criatividade, exigindo
que ela se exerça sem fantasiar demasiadamente. Estas exigências
formais de caráter estético-cultural, juntamente com aqueles
imperativos tecnológicos de retenção da experiência inscrita

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nos objetos, operam como estabilizadores da atividade artística.
As coisas belas que encontramos numa aldeia foram feitas com
técnicas familiares a todos e têm autores reconhecíveis. Isto
permite, por um lado, que elas sejam apreciadas por um público
competente e informado como nenhum outro, porque constituído
por outros tantos criadores virtuais. E, por outro lado,
que as criações e os criadores existam incorporados à vida corrente,
como pessoas e coisas comuns, que se produzem e reproduzem
naturalmente no fluxo de vida.
Esta integraçã'o cultural não é espontânea, nem gratuita, mas o
resultado de muito esforço persistente e de muito tempo posto
pela tribo na transmissão das habilidades constitutivas das diferentes
técnicas. A atenção que as sociedades letradas põem na
educação das crianças e dos jovens, a fim de que possam ler,
escrever e contar, como atividades corriqueiras, os índios põem
na transmissã'o do saber técnico, co-participado, com base no
qual eles fazem mais ou menos bem todas as coisas. t preciso
ponderar, entretanto, que assim como o simples fato de escrever,
entre nós, não faz de ninguém um escritor, a mera capacidade
de fazer mais ou menos bem qualquer artefato não faz de
nenhum índio, só por isso, um artista. Faz é toda a comunidade
participar da alegria da criatividade e do gozo da apreciação
estética.
A arte flui ali de uma cultura homogénea, como um componente
dela, harmonizado com todos os outros por um longuíssimo
esforço de integração recíproca. Um componente co-participado
por todos os membros da comunidade que porta e
fecunda aquela cultura, inclusive sua arte. t uma arte mais
comunal que individual, em cujo seio o artista nem sequer
reivindica para suas obras a condição de criações únicas e pessoais.
Sendo apenas genuínas, elas constituem reiterações de
elementos pertencentes à comunidade, tão dela que expressam
mais sua tradição do que a personalidade do próprio artista.
Esta arte comunal é a floração maior das comunidades indígenas.
Aquela que lhes confere a imagem visível de si mesmas,
de sua beleza, rigor e dignidade. Cumpre, por isso, três funções
elementares: a de diferenciar o mundo dos homens, regidos
pela conduta cultural que se constrói a si mesma, do mundo
dos bichos, comandados por impulsos inatos, inevitáveis e incontroláveis.
A de diferenciar aquela comunidade étnica de
todas as outras, proporcionando um espelho em que ela se vê
e se contrasta com a imagem etnocêntrica que tem de outros
povos. Cumpre, ainda, a função geral de dar aos homens coragem
e alegria de viver, num mundo cheio de perigos, mas que
pode ser melhorado pela ação dos homens.
OS fNDIOS E NÓS
Duas ordens de considerações prévias se impõem aqui para limpar
o terreno em que pisamos. Primeiro, que os índios não são
fósseis vivos, representativos de etapas prfstinas da evolução
humana. Segundo, que não há uma indianidade comum, porque
cada tribo tem seu universo cultural próprio, tão diferenciado
dos demais como nós o somos de qualquer outro povo.
Estas afirmações peremptórias precisam, porém, de algum reparo.
No primeiro caso, porque, embora eles não sejam prístinos,
separam-nos deles ponderáveis distâncias culturais. Entre
nossos índios mais adiantados e as sociedades avançadas do
mundo atual há um vão de cerca de dez mil anos. Ou seja, .eles
vivem agora naquele nível de desenvolvimento cultural atingido
pelas referidas sociedades há dez mi 1 anos. 1 sto é, de fato,
muito pouco porque estes escassos milênios devem ser postos
sobre uma escala de dois milhões de anos, que é o tempo comum
no curso do qual eles e nós nos fizemos homens, capazes
de conduta cultural, inclusive de criação estética.
Dito isto, o importante a reter é que os índios, nossos contemporâneos,
não são coetâneos nossos, porque vivem em sociedades
não estratificadas em classes. Vale dizer, são povos que não
passaram pela mais brutal e alienadora das vicissitudes humanas,
que foi a partição da sociedade em componentes antagonicamente
opostos: um senhorial, minoritário; outro servil, multitudinário.
Em conseqüência, suas criações culturais, inclusive
as artes, não foram refeitas para servir e honrar a dominação
classista, tendo por isto uma genuinidade e generalidade que as
nossas perderam.
t certo que, neste trânsito, a criatividade artística não experimentou
transformações tão radicais quanto outros níveis da
cultura. Sendo anterior à estratificação social e à bipartição da
sociedade em gêneros de vida rural e urbano e da cultura em
uma esfera erudita e outra vulgar, as artes preservaram características
que tinham antes daqueles eventos fundamentais.
Projetadas sobre os índios, essas observações só nos permitem
asseverar que o estudo das artes indígenas de nada serve para
reconstituir as bases da criatividade humana. Neste campo,
como em muitos outros - tal como o desenvolvimento da fala,
por exemplo - eles estão na mesma posição que nós. Permitem,
também, entender que suas atividades criadoras não foram
crestadas pela produção em massa com propósitos mercantis,
nem pelo açambarcamento senhorial das obras e a servilizaçã'o
correspondente dos artistas. Em conseqüência, vicejam como
uma arte comunal, aberta à participação de todos, mais fecunda
e mais gratificante para toda gente que nossas artes eruditas.

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A arte indígena, como arte de sociedades não estratificadas em
classes, tem como característica distintiva a abundancia das
criações definíveis como artísticas, decorrente da predominãncia
de uma postura estética em toda atividade produtiva. Vivendo
em comunidades solidárias de economia comunal e auto-
suficiente, que existem para reproduzir-se a si mesmas e suas
formas de existência, os índios contam com largos períodos de
tempo livre para o lazer e o convívio humano e para as atividades
de expressão estética.
Ao contrário do homem "civilizado" e atrelado a uma econo-
32 mia de mercado, que trabalha mais tempo para outros que para
si próprio, não tendo folga para o lazer - e que foi espoliado
até da confiança em si mesmo como um ser capaz de inteligência
e criatividade - o nosso "selvagem" vive uma vida farta e
está seguro de que ele próprio é uma nobre criatura, capaz de
tudo entender e de fazer muito bem ao menos algumas coisas.
Mais horas ocupa um índio em satisfazer sua vontade de beleza,
fazendo coisas belas, adornando seu corpo, cantando ou
dançando, do que qualquer artista profissional nosso dedica a
seu ofício, às vezes tão arduamente especializado que deixa de
ser gozoso.
O esforço e a diligência que um índio põe no fazimento das
coisas é muito maior do que o necessário para que elas cumpram
suas funções pragmáticas. Este esforço adicional e dis·
pensável seria inútil e fútil, se beleza não fosse assunto tão sério
para seres humanos equilibrados e íntegros. Com efeito, os
índios - como em geral as gentes das sociedades não estratificadas
que conseguiram desenvolver uma economia de subsistência
que as libertou da penúria - vivem como se fossem criaturas
de um deus dionisíaco que lhes deu corpos armados de prodigiosas
possibilidades de gozo, espíritos fantasiosos e mãos
capazes de recriar o mundo vivificando a matéria em formas de
beleza exemplar.
Muito leitor pensará que o autor destrambelhou e teria razão se
eu não falasse do que vi. Mas eu vi a indianidade original na
glória de vidas plenamente realizadas, gozosas e contentes de si
mesmas, que nã'o descambam para a orgia e o desvario, mas
para as alegrias da expressividade artística e do convívio humano.
Nossa segunda observação prévia é a de que não há uma arte
comum ou geral dos índios, mas tantos quantos são os muitos
povos em que eles se diferenciam. Aqui também é preciso ponderar
que, apesar das diferenças, há um ar de família em suas
criações que as torna distinguíveis tanto das européias, como
das africanas e das asiáticas.
Com efeito, embora guerreando, os índios se comunicavam uns
com os outros e assim muitas ·técnicas como a lavoura, a cerâ·
mica, os trançados e, do mesmo modo, os temas míticos e até
costumes raros como a couvade transitavam de uma tribo a ou·
tra, emprestando certa uniformidade às suas culturas. Prevalecem,
porém, sobre estas similitudes, as diferenças, contrastan·
do cada tribo com todas as demais. No plano artístico, estas
diferenças são talvez mais visíveis que em qualquer outro. Em·
bora quase todos os índios cultivem os mesmos gêneros - pin·
tura de corpo, trançado, cerâmica, etc., seus estilos variam con·
trastantemente de uma tribo para outra, singularizando a pro·
dução de cada uma delas.
São reconhecíveis, entretanto, duas modalidades gerais de cul·
turas indígenas, diferenciadas por seus sistemas adaptativos. Os
silvícolas, que vivem nas áreas florestais, e os campestres dos
cerrados e savanas. A adaptaçã'o especializada destes grupos a
ambientes ecológicos diferenciados faz com que toda a sua cul·
tura contraste flagrantemente, inclusive suas criações artísticas.
As tribos silvícolas têm uma agricultura estável, bem desenvol·
vida, fundada no cultivo de dezenas de plantas. Entre elas, o
milho, as batatas, a mandioca, o inhame, o cará, o mangarito,
diversos feijões, o amendoim, o fumo, o mamão, o caju, a goia·
ba, o abacaxi, o cacau, o algodão, as cabaças e cuias, o urucu
e muitas outras. Associada à caça, à pesca e à coleta de frutos
silvestres, a alimentação provida pelos roçados garante uma
subsistência farta, mesmo para comunidades com milhares de
pessoas; especialmente quando está situada em uma zona favo·
rável para a caça e para a pesca. Os índios silvícolas, ademais
de agricultores sedentários, fazem cerâmica e tecem redes e
panos com certo primor, trançam cestos e balaios e fazem uma
grande quantidade de outros artefatos.
Os grupos campeiros têm uma cultura material mais singela
porque devem prover a subsistência explorando vastos territó·
rios de cobertura vegetal mais pobre e também de vida menos
rica. Muitos deles têm uma agricultura própria, inferior à silví·
cola, fundada sobretudo no cultivo de cipós comestíveis e
tubérculos. Alguns destes grupos campeiros fazem cerâmica
e tecem, mas estes sã'o exceções. A especialidade campestre é
a confecção de esteiras e cestos trançados, às vezes até imper·
meabilizados para servirem como vasilhame. Neste campo ai·
cançam um nível técnico alto, a que corresponde uma expres·
são artística primorosa.
Tanto os silvícolas como os campestres, entretanto, contam
com uma oferta variadíssima de material a desafiar sua criatividade.
A mata ou o simples mato circundante de cada aldeia
propicia madeiras, cortiças, fibras, palmas, palhas, cipós, se·

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mentes, cocos, resinas, etc.; da fauna eles tiram couros, ossos,
dentes, conchas, garras e, sobretudo, o material artístico mais
nobre com que contam, que são as plumas de uma fauna ornitológica
riquíssima.
Destes povos indígenas é que nós, brasileiros, herdamos as
bases do nosso próptio sistema de adaptação ecológica, mais
desaprendendo através dos séculos o que deles recebemos do
que enriquecendo este acervo com contribuições originais.
Nossa maior dívida é para com os povos Tupí que ocupavam a
costa quando da invasão portuguesa. Eles é que nos ensinaram
tanto a ver e a utilizar a natureza tropical , como a designar
com palavras de sua língua as plantas, .os bichos e os utensílios,
com nomes que ainda hoje sobrevivem nas comunidades neobrasi
!eiras.
Em conseqüência, nós até hoje nos comportamos, em muitas
situações, como se fôssemos gente da floresta, como silvícolas,
opostos à gente campestre que não come farinha de mandioca,
nem sabe navegar. Só recentemente, · aliás - graças à obra de
Curt Nimuendaju, o pai da etnologia brasileira - começamos
a distinguir os campeiros como gente que, além de carências,
têm características próprias tais como: uma lavoura diferenciada
com suas próprias plantas cultivadas; um intrincad íssimo
sistema de organização social; alta-!]lúsica coral; uma primorosa
cestaria; e uma arte plumária majestosa pelas dimensões e
pelo colorido das peças.
G~NEROS ARTÍSTICOS
Em nenhuma aldeia indígena encontramos jamais o vasto instrumental
que entre nós se supõe indispensável para os procedimentos
mecânicos e as operações técnicas de cortar, furar,
raspar, lixar, plainar e acoplar madeiras e materiais semelhantes.
Entretanto, os utensílios indígenas feitos destes materiais são
executados com um primor inexcedível que se evidencia tanto
na regularidade com que reproduzem as formas padronizadas,
como na maestria com que conformam peças e, sobretudo, no
acabamento esmerado que dão ao contorno e ao detalhe.
Os fndios fazem bem tudo que fazem, usando lascas de pedra
para cortar, armaduras de caramujos para lixar, conchas de
madrepérola como tesoura, puas de chifre, facas de osso, etc.,
tudo isto mal·e-mal afeiçoado para servir a todas estas operações.
Atrás desta visível ausência instrumental, o que mais
avulta é a presença de uma extraordinária maestria nas mãos
indígenas. Mais do que nos instrumentos, é nesta habilidade
que se assenta sua capacidade de atuar sobre as matérias com
que trabalham, para forçá-las a assumir a forma do modelo
que têm na mente. Nessas bases é que se produzem e reprodu-
Fot o 1 - Detalhe de ornamentação das empunhaduras de tacapes dos
(ndios Kayab(. Col. Ribeiro. Foto Pedro Lobo.
zem as armas, os objetos e os utensílios operativos com que
os índios fazem a guerra, caçam e pescam e coletam produtos
nativos, cultivam suas roças, preparam e cozinham alimentos,
transportam a si mesmos e a seus bens através de terras e de
águas.
Estamos, como se vê, diante de duas instâncias, uma instrumental,
ferramenteira, que mal se esboça, suprida por utensilhagem
improvisada, mas muito bem usada; e a outra, de
manufaturas de uso corrente na reprodução diária das suas
condições materiais de existência. Nesta última, ao contrário
da primeira, o primor é tão cabal que elas sal tam da produção
comum à artística pela criação de peças da mais extraordinária

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beleza. Nenhuma delas "inventada", todas modeladas segundo
padrões prescritos em canones rigorosos que definem com precisão
absoluta, em cada tribo, as características de suas armas
e estacas de cavar, de seus vasilhames e de suas canoas e remos,
de seus tacapes e de seus propulsores, suas trombetas e de tudo
o mais que fazem.
Esta normatividade genérica não impede que qualquer exemplar
concreto seja inconfundível com qualquer outro. Assim é
que, sobre a tipicidade étnica geral, que é tão rígida, cada índio
encontra modos de singularizar suas próprias criações,
marcando-as caligraficamente. Fazem-no de forma tão nítida
1 .,
Fig. 1 - Pontas de flecha de taquara lanceolada e empluma·
ção costurada. litogravura do Instituto Art<stico do Rio de
Janeiro, Henrique Sleiuss Fróes, 1882. Peças coletadas pela
Comissão Cient(fica do Ceará em 1865. Original na Biblioteca
Nacional. Daqui por diante denominada: iconografia de
1882.
que, ao mais simples exame, um membro da tribo dirá de
quem é este arco ou aquela sarabatana. Quer dizer, quem o fez.
Imprimindo-se tanto em sua feitura, convertem o artefato num
retrato de si mesmos, a denunciar tanto eventuais desleixos,
que seriam imperdoáveis, como virtuosismos, igualmente assi·
naláveis.
Sobre estas qualidades de tipicidade tribal e de personalização
individual, a arte índia ainda encontra espaço para dar expressão
a uma alta criatividade estética. Quando presente, ela se
faz notar de imediato, assinalando a peça entre todas as do
gênero como uma obra-prima cuja beleza será reconhecida e

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admirada por todos. Jamais, porém, no sentido de retirá-la
do uso para guardar ou colecionar, como faríamos nós, mas no
simples e bom sentido da alegria que dá à tribo ter gente como
Anoã, capaz de fazer coisas tão belas.
Essas observações se aplicam aos diversos gêneros de utensílios
acujafacturaos índios dedicam atenção especial. Esse é o caso,
entre outros, de artefatos de madeira como os barcos esculturais
escavados num só tronco e dos remos primorosos dos
Karajã; dos belos bancos zoomorfos e dos raladores trapezoidais
de madeira, com dentes de cristal, dos Baníwa; das estacas
de cavar e das pás de virar beiju que os índios xinguanos conformam
e pintam exemplarmente.
No campo das artes plásticas, os gêneros de mais alto interesse
artístico, cult ivados pelos índios brasileiros, são a arte plumária
e a pintura de corpo, as artes 1 fticas, os trançados e a cerâmica.
Os dois primeiros estão de tal forma associados às práticas
de embelezamento do corpo que serão examinados adiante,
conjuntamente com elas.
Foto 3 - Estaca de cavar e pá de virar beiju, ambas de madeira. Col.
Museu Nacional, foto P. Lobo.
Foto

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