Takuremai

Nota sobre a primeira fase do manual de linguística-1 do caxinauá em caxinauá

Dentro do projeto de documentação da cultura e língua caxinauá o contato com a língua esteve onipresente: transcrição e tradução. Deste trabalho, vários problemas surgiram para os colaboradores-professores caxinauás. O primeiro problema levantado foi o de um alfabeto unificado: como escrever o caxinauá se o alfabeto desta língua diferencia-se em algumas letras e sinais diacríticos. segundo onde ele é usado, no Brasil e no Peru. A documentação realizada pela DoBeS dirigiu-se ao conjunto da sociedade caxinauá e para isso seria fundamental que o alfabeto de uma língua fosse um só para ser usado por todo o grupo.
Desde 2006, vimos assim discutindo a unificação do alfabeto nos dois lados da fronteira. Neste ano, organizamos uma oficina de cultura e língua caxinauá na aldeia Mucuripe, no rio Tarauacá onde quase trinta professores caxinauás e agentes florestais participaram. O grupo entendeu a necessidade da unificação do ponto de vista prático-econômico (tendo menos letras facilita a memorização da criança), do ponto do vista pedagógico (menos letras ajuda a escrever com mais flexibilidade, evitando tantos movimentos da mão). No Brasil, tivemos apoio da Secretaria da Educação do Acre, SEE-Ac, porém não foi possível realizar uma oficina sobre a unificação para o conjunto dos 125 professores caxinauás do Acre . No Peru, em 2008, um professor responsável pela educação bilingue no Purus, bastante sensibilizado com a questão de ter um alfabeto para todos com o qual a troca de material educativo seria possível ao seu ver, passou a falar da unificação a professores caxinauás, a interlocutores da DEIB - Dirección de Educación Intercultural y Bilingüe, do Ministério de Educação do Peru e ao corpo educativo da UGEL - Unidad de Gestion Educativa Local-Purus, na qual trabalha. Neste mesmo ano, a DEIB sugeriu a realização de uma oficina na qual apresentaria-se uma proposta de alfabeto unificado ao grupo caxinauá e que este pudesse discutir sobre as vantagens e incovenientes de tal reforma.
Em 2009, na UGEL-Purus, dentro do âmbito do projeto DoBeS realizamos uma oficina durante a qual a questão da grafia, da necessidade de uma reforma no alfabeto na perspectiva de "uma língua, um alfabeto", seria um tema de discussão essencial para o grupo. Para isso, a fonologia e a estrutura silábica do caxinauá, proporcionando aos seus usuários o conhecimento de regras e argumentos acadêmicos para a escolha do grafema efetuado, foram os temas de estudo da oficina. Esta permitiria ao grupo um melhor entendimento das razões de se propôr uma reforma do alfabeto. Para que os participantes pudessem entender o tema não apenas técnico, mas também novo para eles, usamos uma metalinguagem linguística, buscando a entender os termos técnicos através de neologismos em caxinauá.

A partir dessas três semanas de trabalho, o atual manual passou a ser elaborado, partindo de dados já trabalhados, explorados na oficina de 2006, na aldeia Mucuripe como mencionado acima. Essa oficina de 2009 contou com a participação de caxinauás que se encontravam em Puerto Esperanza, pequena cidade peruana fronteiriça com o Brasil, e com um representante caxinauá do Brasil, habitante do rio Humaitá. Sua participação contou com o apoio da SEE-Acre. Em 2010, a DEIB reiterou a necessidade de oficializar rapidamente o alfabeto. Durante três meses de trabalho em Lima, nas dependências do IFEA - Instituto francês de estudos andinos, dentro do âmbito do projeto DoBeS, com quatro caxinauás que lá se encontravam para efetuar transcrições e traduções do material audio e vídeo do projeto, voltamos a estudar a língua caxinauá a fim que compreendessem bem o funcionamento do sistema fonológico e a estrutura silábica da língua de origem, o seu entendimento seria fundamental para que durante a oficina que se realizaria em setembro de em Puerto Esperanza, eles pudessem explicar em caxinauá esse aprendizado em Lima aos professores caxinauás participantes. Durante a oficina realizada entre 4 e 8 de setembro de 2010, os professores participantes adotaram o alfabeto, cujas letras representam somente os fonema da língua, ou seja quatro vogais e quatorze consoantes. Em agosto de 2011, o alfabeto caxinauá seguindo o sistema fonológico do caxinauá foi oficializado e será empregado em todo material escolar nesta língua pano.

Infelizmente não foi possível organizar uma reunião com membros do grupo dos dois lados da fronteira. O grupo de trabalho caxinauá do projeto DoBeS, no Peru, e o conjunto dos professores participantes das diferentes oficinas de língua sugeriram, em 2011, que um encontro entre representantes caxinauás dos dois lados da fronteira seja realizado afim de uma ampla discussão sobre a necessidade de uma unificação do alfabeto e de um trabalho em conjunto em prol da mesma língua de cultura.

O presente manual de linguística é o fruto dessas diferentes sessões de trabalho sobre a língua caxinauá, usando uma metalinguagem linguística em espanhol e em caxinauá, permitindo acesso a uma compreensão do funcionamento do sistema fonológico mas também de alguns processos fonológicos e modificações fonéticas de base. O ditongo, o hiato assim como a estrutura silábica da língua, e o processo de fusão (vocálica e silábica) foram tratados. Essas atividades ajudaram muito os seus participantes a compreenderem uma parte do funcionamento de sua língua e da reflexão e elaboração de neologismo na área da linguística. O entendimento do processo de nasalidade caxinauá está em andamento e quando as regras forem estabelecidas e redigidas na língua, ele entrará neste manual completando assim esse manual de linguística -1. Este estudo tem o intuito de ser um primeiro de uma série de outros em língua caxinauá, promovendo ao grupo uma documentação em língua vernacular, com material de trabalho, fruto de uma pesquisa científica e de uma pesquisa aplicada, que seja empregado por todos os caxinauás interessados em conhecer o funcionamento de sua língua. Este trabalho é o primeiro passo para o estabelecimento das regras de ortografia. O próximo passo será o estudo da gramática em língua vernacular e a elaboração de outros manuais de linguística em caxinauá abordando a gramática da língua.

Eliane Camargo
DoBeS (MPI-EVA, LESC-CNRS), 2006-2010.
EREA do LESC-CNRS e TEKUREMAI (Associação em prol da diversidade cultural e linguística)

This site is part of the Etnolinguistica.Org network.
Except where otherwise noted, content on this site is licensed under a Creative Commons Attribution 3.0 License.