Coleção Emil Heinrich Snethlage
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Introdução

por Hein van der Voort

O alemão Emil Heinrich Snethlage (1897-1939) fez duas viagens importantes ao Brasil. Inspirado pelo exemplo de sua tia Emilie Snethlage, que naquele tempo trabalhava para o Museu Paraense Emílio Goeldi (do qual fora diretora entre 1914 e 1922), Emil Heinrich Snethlage fez uma viagem ornitológica entre 1923 e 1926 (em parte acompanhado por sua tia) ao Centro-Oeste do Brasil, onde visitou vários povos Jê e Tupí e desenvolveu uma paixão pela etnografia. De volta à Alemanha, foi contratado pelo Museum für Völkerkunde (Museu para Etnologia — hoje Ethnologisches Museum) em Berlim.

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Do final de 1933 até o início de 1935, Snethlage organizou uma expedição ao alto rio Madeira. O objetivo da expedição era aumentar a coleção do Museu de Etnologia em Berlim. Durante pouco mais de um ano ele visitou algumas partes da Bolívia e subiu quase todos os afluentes importantes do lado brasileiro do rio Guaporé, visitando 13 povos indígenas que ainda quase não haviam tido contato com a cultura ocidental. Ele colecionou milhares de objetos etnográficos, fez escavações arqueológicas, documentou a vida dos povos indígenas em fotografias e filmes, gravou música indígena em cilindros de cera e coletou listas de palavras das línguas indígenas. Também manteve um diário científico, cujo manuscrito datilografado consta de mais de 1000 páginas.

Também disponíveis:


Com base na viagem ao alto Madeira, Snethlage chegou a organizar uma exposição em Berlim, publicar vários artigos etnográficos, um estudo das tradições musicais indígenas (1939) e um livro científico-popular sob o título Atiko y (1937). Snethlage planejava a publicação de monografias sobre as diferentes tribos e dos vocabulários de suas línguas. Já estava trabalhando em vários ensaios e uma monografia sobre os Moré em 1939, quando a 2a Guerra Mundial interrompeu suas atividades. Teve que ingressar no serviço militar obrigatório, e logo depois faleceu em um acidente.

A maior parte da coleção etnográfica de Snethlage — como também o diário — sobreviveu a guerra. O etnólogo Franz Caspar teve acesso ao diário e aos vocabulários quando estava trabalhando em sua tese doutoral (1953) e algumas informações importantes deste material foram incluídas em sua monografia sobre os Tuparí (1975). Outros cientistas, como Chestmír Loukotka e Paul Rivet, tiveram acesso a este material, que nunca foi publicado e do qual uma parte desapareceu. Foi com base nos vocabulários do Snethlage que Curt Nimuendajú descobriu a conexão entre as línguas Jabuti de Rondônia e as línguas Jê do Centro-Oeste. Uma parte dos vocabulários foi digitalizada na Universidade de Leiden por Hélène Brijnen e Willem Adelaar. O diário está sendo preparado para publicação por seu filho e herdeiro, Rotger Snethlage.


"[…] o trabalho de Snethlage é uma das melhores fontes etnográficas e históricas que existem sobre a vida tradicional dos povos indígenas do lado direito do rio Guaporé."


Os trabalhos de Snethlage representam uma fonte riquíssima de dados sobre os povos e indivíduos indígenas da região, nas primeiras décadas do contato com a cultura ocidental. Naquele tempo, a região onde ele viajou era totalmente desconhecida pela ciência; na maioria dos casos, Snethlage foi o primeiro a documentar suas culturas e línguas indígenas. Infelizmente, doenças contagiosas exógenas já haviam sido introduzidas por não-índios e, quando Franz Caspar chegou no final da década de 40, a maioria das populações já haviam sido dizimadas. Não obstante o trabalho de Caspar, ainda se sabe muito pouco das culturas hoje quase extintas do lado direito do Guaporé, a maioria das quais fazem parte do Complexo Cultural do Marico (assim chamado pela antropóloga Denise Maldi). Consequentemente, e em vista da riqueza e da qualidade dos dados, o trabalho de Snethlage é uma das melhores fontes etnográficas e históricas que existem sobre a vida tradicional dos povos indígenas do lado direito do rio Guaporé.

Nesta coleção disponibilizamos em formato PDF vários trabalhos de E. H. Snethlage. Estes trabalhos, publicados há muito tempo em revistas que se encontram somente em bibliotecas especializadas, são aqui disponibilizados com a devida aprovação de Rotger Snethlage.

Itens disponíveis

Algumas fontes

  • Brijnen, Hélène, & Willem F.H. Adelaar. 2010. Amazonian languages. Leiden: Universiteitsbibliotheek.
  • Caspar, Franz. 1953. Ein Kulturareal im Hinterland der Flüsse Guaporé und Machado (Westbrasilien), dargestellt nach unveröffentlichten und anderen wenig bekannten Quellen, mit besonderer Berücksichtigung der Nahrungs- und Genussmittel. Universität Hamburg: Tese doutoral.
  • Caspar, Franz. 1958. Tuparí. Entre os índios, nas florestas brasileiras. São Paulo: Melhoramentos.
  • Caspar, F. 1975. Die Tupari: Ein Indianerstamm in Westbrasilien [Monographien zur Völkerkunde herausgegeben vom Hamburgischen Museum für Völkerkunde VII]. Berlin: Walter de Gruyter.
  • Loukotka, Čestmír. 1963. Documents et vocabulaires inédites de langues et de dialectes sud-américains, Journal de la Société des Americanistes [nouvelle série, tome LII], p. 7-60, Paris: Musée de l'Homme.
  • Loukotka, Čestmír. 1968. Classification of South American Indian Languages, Johannes Wilbert (org.), Los Angeles: Latin American Center, University of California.
  • Nimuendajú, Curt. 2000. Cartas do Sertão de Curt Nimuendajú para Carlos Estevão de Oliveira, apresentação & notas: Thekla Hartmann, Lisboa: Museu Nacional de Etnologia, Assírio & Alvim.
  • Maldi, Denise. 1991. O Complexo Cultural do Marico: Sociedades Indígenas dos Rios Branco, Colorado e Mequens, Afluentes do Médio Guaporé. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Antropologia, 7/2: 209-269.
  • Mere, Gleice. 2008. Emilie Snethlage: uma mulher à frente do seu tempo. Tópicos, 4, p. 52-53.
  • Mere, Gleice. 2013. Emil-Heinrich Snethlage (1897-1939): nota biográfica, expedições e legado de uma carreira interrompida. Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Cienc. Hum., v. 8, n. 3, p. 773-804, set.-dez. 2013.
  • Ribeiro, Eduardo & Hein van der Voort. 2010. Nimuendajú was right: The inclusion of the Jabuti language family in the Macro-Jê stock. International Journal of American Linguistics, 76/4: 517-583.
  • Snethlage, Emil Heinrich. 1937. Atiko Y: Meine Erlebnisse bei den Indianern des Guaporé. Berlin: Klinkhardt & Biermann Verlag.
  • Snethlage, Rotger Michael. 2002. Leben, Expeditionen, Sammlungen und unveröffentlichte wissenschaftliche Tagebücher von Dr. Emil Heinrich Snethlage. Current Studies on South American Languages [Indigenous Languages of Latin America (ILLA) 3], Mily Crevels, Simon van de Kerke, Sérgio Meira & Hein van der Voort (orgs.), p. 75-88, Leiden: CNWS Publications.

Veja também:

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