Lucy Seki (1939-2017)
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Esta página reúne informações sobre a carreira de Lucy Seki, uma das mais importantes pesquisadoras no campo das línguas indígenas brasileiras, falecida em 23 de junho de 2017.1 Uma das mais ativas pesquisadoras no campo das línguas indígenas brasileiras, Lucy Seki era a maior especialista nas línguas Kamaiurá (família Tupí-Guaraní) e Krenák (tronco Macro-Jê), com as quais trabalhou por mais de quatro décadas.

Coordenadora de projetos de documentação lingüística e educação no Parque Indígena do Xingu, ela contribuiu também para o conhecimento de várias outras línguas indígenas, tanto em seus próprios estudos, como através da orientação de dezenas de teses e dissertações. Seu aprofundado trabalho com o Krenák, língua em adiantado processo de extinção, a qualificou como uma das maiores especialistas no que diz respeito à problemática envolvendo línguas em perigo e obsolescência lingüística no país. As obras aqui reunidas ilustram os principais aspectos da contribuição de Lucy Seki à lingüística, incluindo tanto estudos sobre o Kamaiurá e o Krenák, quanto trabalhos em áreas em que sua atuação é em princípio menos conhecida (caso da lingüística histórico-comparativa Macro-Jê).

Sobre a autora:


Lucy por ela mesma:

"Natural de BH, nascida em 27/03/1939; viúva, dois filhos. Ginasial e Colegial cursados no Colégio Estadual de MG; Bacharel em História pela UFMG; Mestre e PhD pela Univ. da Amizade dos Povos 'Patrice Lumumba' (Moscou); Pós-Doutorado na UT/Austin."

(Do perfil de Lucy Seki em nosso Cadastro de Pesquisadores)


Mineira de Belo Horizonte, Lucy Seki obteve seu mestrado (1969) e doutorado (1973) na Universidade Patrice Lumumba, em Moscou (numa época em que relações com países do bloco comunista eram ainda vistas com suspeita pelo governo brasileiro), onde se familiarizaria com as pesquisas tipológicas sendo desenvolvidas sob a liderança de Klímov. Tal influência se faria sentir não apenas em seus trabalhos de mestrado e doutorado, mas também em sua atuação como professora, de volta ao Brasil. Lecionando na Unicamp (desde 1977) e em cursos pelo país afora, Lucy despertou o interesse pela tipologia lingüística em várias gerações de lingüistas brasileiros.

Apesar de sua sólida formação teórica, sua ênfase sempre foi na descrição detalhada das línguas com que trabalhava (com base em prolongado trabalho de campo), sem subordinação a teorias lingüísticas herméticas e passageiras. Essa preocupação — essencial, em se tratando de línguas pouco conhecidas e com uma necessidade urgente de documentação, como é o caso da maioria das línguas indígenas do continente — é perceptível não apenas em seu próprio trabalho, mas em várias das teses feitas sob sua orientação. Um resultado desta dedicação é a sua detalhada Gramática da língua Kamaiurá, língua Tupi-Guarani do Alto Xingu (Editora da Unicamp/Imprensa Oficial de São Paulo, 2000), a primeira gramática abrangente de uma língua indígena brasileira a ser publicada por autor brasileiro.

Lucy Seki fundou, ainda, a revista LIAMES (Línguas Indígenas da América do Sul), o mais importante periódico científico brasileiro dedicado exclusivamente às línguas indígenas do continente. Em 2010, Lucy foi eleita membro honorário da Linguistic Society of America — um título conferido em reconhecimento a lingüistas não residentes nos EUA que tenham feito contribuições significativas a nossa área. Em 2012 Lucy publicaria sua monumental compilação de narrativas Kamaiurá, O que habitava a boca de nossos ancestrais, resultado de mais de 40 anos de pesquisas entre os anciãos moronetajat ("senhores das histórias") deste grupo indígena xinguano.


Sobre a Gramática do Kamaiurá:

"This grammar provides a set of parameters for analyzing Tupi-Guarani languages and sets a fine example for linguists in Brazil and elsewhere to follow. […] I do hope that this standard will be kept up—especially in Brazil, with its wealth of dauntingly difficult and typologically unusual languages in need of urgent description and analysis."

Alexandra Aikhenvald in Language, Vol. 78, No. 2 (Jun., 2002), pp. 316-319 (leia mais)

Para saber mais:

Um perfil (Lucy Seki e o indigenismo) traçando a trajetória da autora foi publicado em 2000 pela revista eletrônica ComCiência. Uma entrevista concedida por Lucy em novembro de 2016 foi publicada pouco antes de seu falecimento pela Revista Linguíʃtica da UFRJ (vol. 13, n. 1, jan/2017). Além disso, os seguintes artigos de sua autoria servem de excelentes introduções à história dos estudos das línguas indígenas brasileiras e sua situação atual:

O blog Relembrando Lucy Seki é um espaço para depoimentos pessoais dos que a conheceram, celebrando a memória de uma cientista exemplar.

Entrevista

Entrevista concedida à Revista Raiz, disponibilizada no canal da revista no YouTube em outubro de 2011

Parte 1

Parte 2

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