Povos indígenas e arquivos: desafios e resultados

por Odair Giraldin

  • Barbosa, Alexandre de Souza. 1918. Cayapó e panará. Manuscrito datado "Uberaba, 20 de junho de 1918", digitalizado pelo Núcleo de Estudos e Assuntos Indígenas (Universidade Federal do Tocantins).

Quando eu comecei a pesquisar sobre os Cayapó do Sul, fui até Goiânia conversar com Jézus Marco de Ataídes, então o autor da única dissertação de mestrado sobre aquele povo, defendida na UFG em 1991. Ele procurou me desencorajar da minha aventura de procurar documentações sobre aquele povo indígena porque, segundo ele, nada havia sobrado de fontes documentais que trouxessem informações sobre aquele povo, chamado desde o século XVIII simplesmente de Cayapó.

Tomei sua posição como um desafio. Eu já tinha conhecimento de documentos do início do século XIX, para a região do rio Tietê na foz deste com o Paraná, que foram publicados pelo Arquivo Público de São Paulo (na série Documentos Interessantes para a História e Costumes de São Paulo). E como Nimuendajú afirmava que eles viveram até o começo do século XX no Triângulo Mineiro, eu acreditava que um povo de quem havia notícias desde o século XVIII numa ampla região que compreendia o norte de São Paulo, o Triângulo Mineiro, sul de Goiás e leste de Mato Grosso do Sul, não poderia ter desaparecido sem que documentos sobre eles tivessem sido escritos. Além disso, foi um povo que manteve resistência tenaz e bélica contra a presença não-indígena na região. Não! Decididamente eu não acreditava que eles teriam desaparecido sem deixar algum rastro.


"Os arquivos guardam muitas informações sobre os povos indígenas. Tudo depende de persistência, sensibilidade e paciência para procurar."


Vasculhei, então, os arquivos públicos de Minas Gerais, em Belo Horizonte. Fui a Cuiabá e consultei o Arquivo Público de Mato Grosso e os manuscritos microfilmados do Núcleo de Documentação e Informação Histórica, da UFMT. Fui a Goiânia e vasculhei o Arquivo Histórico Estadual de Goiás e os arquivos da cidade de Goiás (antiga Vila Boa). Na capital paulista mergulhei na documentação tanto do Instituto Histórico e Geográfico Paulista, quanto do Arquivo Público de São Paulo. No Rio de Janeiro visitei e pesquisei várias vezes na Biblioteca Nacional, no Arquivo Nacional e nos arquivos do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

Como uma atividade de garimpeiro, que não despreza nenhuma porção de terra e as passa todas em sua bateia, procurei vasculhar ao máximo todas as possibilidades onde pudesse ter fontes sobre aquele povo. De fato, em todos os arquivos encontrei alguma informação sobre os Cayapó. Mas foi no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro que bamburrei (para usar a expressão do garimpeiro que encontra a grande pepita!).

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Após procurar nos fichários com todas as variáveis possíveis para o grupo pesquisado (Kayapó, Caiapó, índios de Goiás, índios de Minas, Rio Paraná, etc), resolvi olhar também por Panará, uma vez que este etnônimo, do grupo atual existente no norte do Mato Grosso, talvez fosse a autodesignação dos antigos Cayapó, segundo Pohl e Saint-Hilaire. Meu coração palpitou quando encontrei uma ficha que mencionava: Índios Panará do Triângulo Mineiro. Atônito e suando frio, aguardei o funcionário trazer a lata. Abri-a e me arrepiei com o que vi! Um manuscrito elaborado em 1918 por um agrimensor de Uberaba, por nome Alexandre de Souza Barbosa, que havia recolhido um vocabulário de mais de seiscentas palavras dos Cayapó do Sul. Este corpus foi construído ouvindo uma velha senhora que era a única falante da língua, numa pequena aldeia nas margens do Rio Grande, próximo a Cachoeira Vermelha. Após escrevê-lo, Alexandre enviou seu texto para o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, onde permaneceu guardado até meu encontro com ele quase oitenta anos depois, no início dos anos 1990.

Este vocabulário, ao ser analisado por Aryon D. Rodrigues e Luciana Dourado, demonstrou que os antigos Cayapó eram os antepassados dos atuais Panará. A língua atual, comparada com aquela do vocabulário de Alexandre de Souza Barbosa, demonstra serem possivelmente variações dialetais de uma mesma língua.

Ao encontrar o documento de Alexandre de Souza Barbosa, lembrei-me de Jézus Marco de Ataídes. Ele estava equivocado! Os arquivos guardam muitas informações sobre os povos indígenas. Tudo depende de persistência, sensibilidade e paciência para procurar.

Para saber mais:

Dourado, Luciana Gonçalves. 2001. Aspectos morfossintáticos da língua Panará (Jê). Tese de doutorado, Unicamp.

Dourado, Luciana. 2004. As vicissitudes do povo Panará e a sua língua. Atas do II Encontro Nacional do Grupo de Estudos de Linguagem do Centro-Oeste: Integração Lingüística, Étnica e Social, p. 173-178.

Giraldin, Odair. 2000. Renascendo das cinzas: um histórico da presença dos Cayapó-Panara em Goiás e no Triângulo Mineiro. Sociedade e Cultura, Vol. 3, No 1, p. 161-184.


Publicado originalmente no blog da Biblioteca Digital Curt Nimuendajú (18/março/2011)

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