Aldevan Baniwa (1974-2020)
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Aldevan Baniwa nasceu em 10 de janeiro de 1974, na Ilha da Oscarina, região do Alto Rio Negro, Amazonas, de pai Baniwa e mãe Tukano. Morador de Manaus por décadas, curioso por aprender línguas e culturas diferentes, Aldevan, no entanto, nunca deixou de cultivar suas raízes indígenas. Além do português e do inglês, era também fluente em Nheengatú, língua indígena ameaçada. Aprendeu o inglês, como autodidata, quando morou nos EUA com sua companheira, a antropóloga e linguista Ana Carla Bruno (hoje pesquisadora do INPA), que lá cursou seu doutorado. Lá nasceram as duas filhas do casal, frutos de um amor que parece coisa de livro: a moça urbana do Recife, saudosa de seus maracatus, e o rapaz Baniwa, caçador, pescador e artesão que transformava a dureza do coco de tucum em delicados botos e tartarugas, se conheceram trabalhando no meio da floresta amazônica, junto aos Waimiri Atroari.  É Ana Carla quem conta a história, tão bonita de se (vi)ver.

Outra parceria viria na forma de livro. No final de 2019, Aldevan e Ana Carla, ao lado de Noemia Ishikawa, especialista em cogumelos, e Takehide Ikeda, que estuda as cores dos seres vivos, publicaram o livro infantil Brilhos na Floresta, ilustrado por Hadna Abreu.  Baseado em uma história real, o livro tem Aldevan como personagem principal, ensinando Noemia e Takehide a apagarem suas lanternas para que possam apreciar o brilho de cogumelos bioluminescentes no escuro da floresta. A lição, simples, é que às vezes é necessário deixar de lado o costumeiro (a lanterna no breu de uma noite sem lua) para revelar o desconhecido. Outra lição, profunda, é que o cientista tem muito a aprender com o conhecimento tradicional indígena. Como livro infantil, é uma história divertida e uma excelente introdução ao processo de descoberta científica e à riqueza biológica e diversidade cultural da Amazônia. Mas é exemplar também em outro aspecto: nele, um intelectual indígena contribui com a ciência não apenas como informante ou personagem, mas como autor, protagonista, guardião e divulgador da memória cultural de seus ancestrais.


Como livro infantil, Brilhos na Floresta é uma história divertida e uma excelente introdução ao processo de descoberta científica e à riqueza biológica e diversidade cultural da Amazônia. Mas é exemplar também em outro aspecto: nele, um intelectual indígena contribui com a ciência não apenas como informante ou personagem, mas como autor, protagonista, guardião e divulgador da memória cultural de seus ancestrais.

Compartilhar sua herança cultural, generosamente, com os amigos, dando início a esta sua nova faceta de autor, era algo que Aldevan fazia nas horas vagas. No trabalho cotidiano, era agente de combate a endemias da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS-AM), linha de frente no combate ao Covid-19, que vem afetando a população do Amazonas de maneira desproporcional — especialmente a população indígena. Como outros de seus colegas, expostos ao risco de contágio sem contar com proteção adequada, Aldevan acabou sucumbindo à doença em 18 de abril de 2020, após sofrer com sintomas por vários dias sem conseguir ser testado. O desenrolar da tragédia foi anunciado por Aldevan nas suas redes sociais, em tempo real, denunciando o descaso governamental. Foi sepultado no Dia do Índio.

Mais que denunciar o descaso do governo frente às vítimas da pandemia ou lamentar a morte prematura de um amigo querido, este espaço se destina a celebrar a vida de Aldevan Baniwa, na memória daqueles que o conheceram e no legado que ele nos deixou. Que o Projeto Aldevan Baniwa — e sua primeira publicação, Brilhos na Floresta, que seguirá brotando nas línguas do Brasil e do mundo — inspire em crianças e adultos a curiosidade científica, o amor à natureza e o respeito à diversidade cultural. E que sirva de exemplo para que se promova ainda mais essa parceria fecunda entre indígenas e não indígenas, cientistas ou não, nos esforços de valorização da vida e do conhecimento indígenas. Em um momento de dureza e escuridão, que sua memória nos sirva de alento e guia.

Notícias sobre Aldevan

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Uma estrela Baniwa a brilhar no céu
(Juliana Radler, Instituto Sociambiental, 19/abril/2020)

"[…] Aldevan tinha 45 anos, duas filhas jovens e esposa. Nasceu na localidade de Ilha da Oscarina, no interior profundo de Tapuruquara, no Médio Rio Negro, em Santa Isabel do Rio Negro. Seu pai é Baniwa e sua mãe Tukano, ambos do Alto Rio Negro, São Gabriel da Cachoeira.

Em novembro passado Aldevan estava muito feliz, conta a pesquisadora Noêmia Kazue Ishikawa, por ter feito o lançamento do livro “Brilhos na Floresta” na terra de origem de sua família. […] "Ele incentivava os indígenas a escrever suas histórias porque dizia que a gente eternizava nossas histórias ao fazê-las entrar nos livros”, disse Noêmia, lembrando de tantas tardes de sábado, no INPA, trabalhando com Aldevan e os pesquisadores Takehide Ikeda e Ana Carla Bruno nesta publicação."

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Agente de endemias e autor, indígena morre sem conseguir teste para Covid
(Rubens Valente, UOL, 19/abril/2020)

"Nascido em São Gabriel da Cachoeira (AM) em 10 de janeiro de 1974, Aldevan Baniwa falava, de acordo com os seus amigos, inglês, português e nheengatu, uma das línguas faladas pelos indígenas em São Gabriel. Ele aprendeu o inglês porque morou cerca de quatro anos nos Estados Unidos com sua então mulher, a antropóloga Ana Carla Bruno. O casal teve duas filhas nos EUA, que estudam design e educação física.

Morador de Manaus há anos, no bairro Santa Etelvina, Aldevan também frequentava um sítio da família na zona rural. Foi lá que ele apresentou, anos atrás, fungos bioluminescentes a dois amigos biólogos de Manaus e do Japão. Isso deu origem a um livro infantil chamado "Brilhos na floresta" (editoras Valer e INPA), do qual Aldevan é coautor ao lado dos biólogos Noemia Kazue Ishikawa, pesquisadora do INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) e Takehide Ikeda, da Universidade de Kyoto, no Japão, e da antropóloga Ana Carla."

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Aldevan Baniwa, que denunciou a falta de testes para Covid-19, morre em UTI de Manaus
(Izabel Santos, Amazônia Real, 19/abril/2020)

"Aldevan Brazão Elias, de 46 anos, indígena da etnia Baniwa, do Alto Rio Negro, morreu com suspeita de Covid-19 na noite de sábado (18), na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) da Fundação de Medicina Tropical do Amazonas, hospital localizado na zona centro oeste de Manaus. Ele era agente de combate às endemias da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS), da Secretaria Estadual de Saúde do Amazonas (Susam), defensor da saúde indígena, colaborador de cientistas e escritor. Estava com os sintomas da doença desde o dia 11 de abril e buscou tratamento de saúde em várias unidades públicas. Não foi submetido à testagem do novo coronavírus e chegou a denunciar, nas redes sociais, o colapso nos hospitais, a falta de testes da Covid-19 para os profissionais da área, seu próprio estado de saúde e o desamparo na assistência."

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Carta a Aldevan Baniwa: o brilho da floresta
(José Ribamar Bessa Freire, Taquiprati, 26/abril/2020)

"[…] Domingo, 19 de abril, a FVS-AM informa que o caixão de Aldevan Brazão Elias, de 46 anos, desceu na cova do cemitério Parque Tarumã, em Manaus, às 18h22. Com ele, foi sepultado outro agente de saúde Clauber da Silva Cavalcante. “Já morreram quatro agentes de endemias em Manaus” — informou ao Instituto Sociambiental (ISA) o teu irmão mais velho, André Brazão, ele também agente de saúde, chamando atenção para o simbolismo da data:

— “Hoje é um dia marcado pra eternidade pra minha família (…) justamente seu enterro é no dia do índio, talvez seja uma grande homenagem dos espíritos da floresta”."

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