1070

<

>



NASH, Roy
  • A Conquista do Brasil. Tradução de Moacyr N. Vasconcellos. Série Brasiliana, CL. São Paulo, 1939. 501 pp. in-8.º, 7 mapas no texto, 12 pranchas. — Título do original norte-americano: The Conquest of Brazil (New York, 1926).

Depois de historiar, resumidamente, o tratamento dado pelos brancos aos índios do Brasil, o autor chega à seguinte conclusão: "Ninguem mais que nós admira o esplendido trabalho do General Rondon e as iniciativas do Governo Brasileiro em prol do íncola; entretanto, a despeito dêsse notável esfôrço, a espécie de relações que predomina na zona de contacto cada vez mais reduzida, entre a civilização e a barbárie, é, em 1926, tão pouco diferente da de 1532 que, ainda hoje a única forma de liberdade que resta ao selvagem é a morte e para sua mulher a concubinagem. Quando essa situação tiver atingido o fim, i.e., quando o último índio genuino tiver desaparecido, êsse desfecho patético, — aliás de grande significação biológica — só terá repercussão dentro de minguada zona sertaneja. Assim se processou a fusão da Europa com a America-Asiática. Foi assim que o sangue do brasileiro absorveu do ameríndio a coragem, a robustez física, a resistência à dôr e a adaptação ao meio ambiente. O fato de terem essas qualidades penetrado na corrente etnológica pela escusa porta da bastardia, não tem significação do ponto de vista eugênico; mas o de serem muitos dos povoadores que costumavam agir nessa zona oscilante que separa a civilização da selvageria, homens que não poderiam viver em sociedade sem que sobre êles passasse a mão punitiva da justiça — isso sim, poderá ser motivo de pesar tanto para os que se simpatizam com o índio que se vai tão tràgicamente extinguindo como para o brasileiro, de cujas veias o sangue selvagem jamais desaparecerá. O direito do brasileiro levar a termo êsse processo de assimilação, até que o último chefe indígena, com um sorriso de escárneo sobre os lábios altivos, seja precipitado de um penhasco e a última escrava de sua raça tenha cruzado a soleira do serralho d'algum seringueiro sifilítico — êsse direito do brasileiro, diziamos, não há como ser negado. É essa a trágica significação da palavra Soberania. O Brasil, porém, como todo o resto do mundo, terá, provavelmente, dentro de um ou dois séculos, de por-se em contacto muito mais íntimo com outros povos, e então, os representantes da Espécie Humana, reunidos em algum centro onde impere a mais apurada civilização, poderão pedir contas ao brasileiro, de tal sistema administ[r]ativo. Quando a taça tiver passado de mão em mão e chegar a sua vez de usar a palavra êle talvez nem possa explicar com clareza a obra destruidora de seus antepassados dos primeiros cinco séculos - história essa que a posteridade poderá julgar de maneira diversa dos nossos contemporâneos — a menos que alguma coisa se faça imediatamente no sentido de aclarar e conservar, em prol da raça, a verdadeira história da cultura aborígene no Brasil. Tanto em benefício da humanidade como de sua própria raça, o Brasil está no dever de organizar um Departamento de Etnologia, orientado por antropologistas competentes, que prossigam e intensifiquem as investigações etnográficas até que um dia, cem milhões de brasileiros, orgulhosos e compungidos, reunam-se para assistir os últimos momentos do último representante de uma raça que se foi." (pp.170-172).
Estas palavras, escritas há mais de vinte anos, infelizmente ainda não encontraram o eco que seria de se desejar.
Diante de assunto de tanto alcance, torna-se insignificante o seguinte equívoco, e só a escrupulosidade do etnólogo me obriga a apontar tal minúcia. A prancha pegada à página 33 reproduz uma fotografia com a seguinte descrição: "Uma família selvagem. Note-se a sarabatana e a flauta nasal". Segundo a Revista do Museu Paulista VIII, São Paulo 1911, p. 39 e estampa VI, trata-se de uma fotografia tirada pelo viajante Garbe entre os Botocudos do rio Doce, que representa um homem tocando flauta com o nariz e uma mulher bebendo água do taquaruçu, usado como vaso por êsses índios.

(p. 482)

This site is part of the Etnolinguistica.Org network.
Except where otherwise noted, content on this site is licensed under a Creative Commons Attribution 3.0 License.