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HOLLANDA, Sergio Buarque de 1902-
  • Índios e mamelucos na expansão paulista. Anais do Museu Paulista XIII, São Paulo 1949, pp.175-290.

Mostrando a grande e decisiva influência do índio sôbre quase todos os aspectos da vida dos bandeirantes durante a penetração das terras hoje brasileiras, o autor procura dar o devido valor à contribuição do aborígine para a formação do Brasil, contradizendo, assim aos africanófilos exagerados dêste país que costumam desprezar sistemàticamente tal fato. Revela-se bom conhecedor da literatura etnográfica a respeito, citando-a em numerosas notas de rodapé. Aliás, a importância de seu trabalho para a Etnologia Brasileira torna-se evidente se considerarmos a necessidade de se saber no estudo da aculturação, se um traço cultural encontrado tanto entre índios como entre neo-brasileiros provem dêstes ou daqueles.

Para ter a honra de colaborar com parcela microscópica nas futuras edições da presente obra, quero discutir a conveniência do uso dos têrmos "instinto de orientação" (p. 178) e "senso de orientação" (p. 181) com que o autor se refere à capacidade dos sertanistas e índios de encontrarem em viagem os passadouros adequados e à habilidade cartográfica observada em certas tribos sul-americanas. Já no meu livro "Indianerstudien", publicado em 1931 (p. 118) mostrei ser êsse famigerado "senso" nada mais do que a faculdade de memorizar, perdendo-se o índio, em região desconhecida do sertão, às vêzes tanto quanto o branco. Desde então tive bastante ensejo para observar 1) que para o sertanejo em geral é suficiente ter percorrido uma única vez certa região do sertão bruto para não se perder mais nela, enquanto que erra, na grande cidade, caminho pelo qual já andou repetidamente; 2) que comigo, homem da cidade, se dá o contrário, isto é, não reconheço capim e árvores após tê-los visto só uma vez, mas sim as ruas; 3) que a capacidade de orientação do sertanejo em terra incógnita não costuma ser maior do que a de um inteligente habitante da cidade. - Podemos concluir disso, não ser recomendável o uso dos têrmos acima mencionados, pois faz supor algo inato ao passo que se trata de faculdade adquirida ou, com outras palavras, de questão etnológica e não biológica.

(p. 310)

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